Na pergunta 880 do “Livro dos
Espíritos” da codificação espírita, Allan Kardec pergunta aos espíritos qual o
primeiro de todos os direitos naturais do homem. A espiritualidade responsável
pela codificação responde que é o “direito de viver. Por isso é que ninguém tem
o direito de atentar contra a vida do seu semelhante, nem de fazer o que quer
que possa comprometer-lhe a existência corporal”.
Diante dessa resposta, só podemos
pensar que independentemente da situação em que nos encontremos, não podemos
atentar contra a vida do próximo ou fazer algo que possa facilitar o desgaste
dos órgãos físicos. Isso vale para situações em que nos encontramos enfermos ou
quando vamos ameaçar espontaneamente a existência do nosso próximo.
Daí surge também uma pergunta: e
no caso do aborto? Estamos impedindo uma vida? E se estivermos, desde quando poderemos
considerar a existência de uma vida? Para responder a esses questionamentos
temos que lembrar alguns conceitos que Jesus e a doutrina nos trouxe ou nos
reforçou. O primeiro deles é a existência do espírito, que é “o ser inteligente
que povoa o universo”. O segundo é o da reencarnação, que trata do renascimento
do espírito em um novo corpo físico.
Analisando esses dois conceitos,
percebemos que o nosso espírito (todos nós somos espíritos em um corpo
material) renasce e se liga a um novo corpo a cada nova existência. Mas a
partir de que momento temos essa religação corpórea? Segundo a espiritualidade
superior da codificação na pergunta 344 e o espírito André Luiz, na sua série
intitulada “A vida no mundo espiritual”, temos que essa ligação se inicia desde
o momento da fecundação e que se completa na ocasião do nascimento.
Então, podemos concluir que desde
o primeiro momento da união de óvulos e espermatozoides nós temos a existência
da vida material. Mas, e se for uma situação em que não houve consentimento
entre as partes (homem e mulher) e houver uma fecundação? Há a permissão de
Deus para que o aborto seja praticado?
As perguntas 357, 358 e 359 tratam
especificamente desse tema. Kardec pergunta na primeira delas quais as
consequências tem para o Espírito reencarnante e a espiritualidade trata que é
uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar. Dessa forma, o espírito
tornará a voltar a um corpo físico para que a sua existência seja cumprida.
Na pergunta 358, a
espiritualidade, ao ser questionada sobre o aborto ser crime em qualquer
período da gestação, responde que sempre há crime quando transgredimos as leis
de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida
de uma criança antes do seu nascimento porque impede uma alma de passar pelas
provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.
Assim, cometeremos uma injustiça
sempre que tentarmos ceifar a vida material a um espírito reencarnante. Ainda
poderemos perguntar: e quando há risco de vida para a mãe? Essa é a única
condição em que a espiritualidade esclarece em que é permitido haver um aborto.
Isso porque é preferível sacrificar o ser que ainda não nasceu do que aquele
que já está permitindo que outros espíritos possam reencarnar.
Por fim, lembremos daquele
mandamento recebido por Moisés e diz “Não matarás”. Se nos atentarmos bem para
o que ele diz, ele não impõe condição ou restrição para que esse mandamento
ocorra. Dessa forma, não devemos tirar a vida de quem quer que seja ou em
qualquer etapa desde a fecundação até o desgaste natural dos órgãos físicos não
nos esquecendo que nós desconhecemos os propósitos de Deus para cada um nós.
Italo Linhares