quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O aborto



Na pergunta 880 do “Livro dos Espíritos” da codificação espírita, Allan Kardec pergunta aos espíritos qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem. A espiritualidade responsável pela codificação responde que é o “direito de viver. Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida do seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal”.

Diante dessa resposta, só podemos pensar que independentemente da situação em que nos encontremos, não podemos atentar contra a vida do próximo ou fazer algo que possa facilitar o desgaste dos órgãos físicos. Isso vale para situações em que nos encontramos enfermos ou quando vamos ameaçar espontaneamente a existência do nosso próximo.

Daí surge também uma pergunta: e no caso do aborto? Estamos impedindo uma vida? E se estivermos, desde quando poderemos considerar a existência de uma vida? Para responder a esses questionamentos temos que lembrar alguns conceitos que Jesus e a doutrina nos trouxe ou nos reforçou. O primeiro deles é a existência do espírito, que é “o ser inteligente que povoa o universo”. O segundo é o da reencarnação, que trata do renascimento do espírito em um novo corpo físico.

Analisando esses dois conceitos, percebemos que o nosso espírito (todos nós somos espíritos em um corpo material) renasce e se liga a um novo corpo a cada nova existência. Mas a partir de que momento temos essa religação corpórea? Segundo a espiritualidade superior da codificação na pergunta 344 e o espírito André Luiz, na sua série intitulada “A vida no mundo espiritual”, temos que essa ligação se inicia desde o momento da fecundação e que se completa na ocasião do nascimento.

Então, podemos concluir que desde o primeiro momento da união de óvulos e espermatozoides nós temos a existência da vida material. Mas, e se for uma situação em que não houve consentimento entre as partes (homem e mulher) e houver uma fecundação? Há a permissão de Deus para que o aborto seja praticado?

As perguntas 357, 358 e 359 tratam especificamente desse tema. Kardec pergunta na primeira delas quais as consequências tem para o Espírito reencarnante e a espiritualidade trata que é uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar. Dessa forma, o espírito tornará a voltar a um corpo físico para que a sua existência seja cumprida. 

Na pergunta 358, a espiritualidade, ao ser questionada sobre o aborto ser crime em qualquer período da gestação, responde que sempre há crime quando transgredimos as leis de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida de uma criança antes do seu nascimento porque impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando. 

Assim, cometeremos uma injustiça sempre que tentarmos ceifar a vida material a um espírito reencarnante. Ainda poderemos perguntar: e quando há risco de vida para a mãe? Essa é a única condição em que a espiritualidade esclarece em que é permitido haver um aborto. Isso porque é preferível sacrificar o ser que ainda não nasceu do que aquele que já está permitindo que outros espíritos possam reencarnar.

Por fim, lembremos daquele mandamento recebido por Moisés e diz “Não matarás”. Se nos atentarmos bem para o que ele diz, ele não impõe condição ou restrição para que esse mandamento ocorra. Dessa forma, não devemos tirar a vida de quem quer que seja ou em qualquer etapa desde a fecundação até o desgaste natural dos órgãos físicos não nos esquecendo que nós desconhecemos os propósitos de Deus para cada um nós.

Italo Linhares

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